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Tertúlia promove reflexão sobre os diferentes tipos de discriminação

“A raça humana é uma só, o que existem são diferentes etnias”, afirmou a vereadora responsável pelo pelouro da ação social da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, no encerramento da tertúlia “Frases Fora da Caixa – uma perspetiva dialogante”.

“Devemos olhar para dentro de nós e refletir sobre o que já fizemos de racista, o que em nós é preconceito. E é importante entender que nem todos os preconceitos são necessariamente maus, mas há uns que, de facto, marginalizam o outro”, salientou a vereadora Conceição Henriques.

“Há quem recuse falar inglês com um estrangeiro, defendendo que, estando em Portugal, ele deve falar português. No entanto, é fundamental ter a humildade de reconhecer que recorrer a uma língua comum facilita a comunicação, pois ninguém domina todos os idiomas”, afirmou. “Temos uma preocupação excessiva em desumanizar e em diferenciar”, acrescentou.

“Eu odiaria viver numa sociedade onde não houvesse pessoas de diferentes etnias. Durante 17 anos trabalhei em Lisboa e, para mim, uma das maiores riquezas era entrar no metro e viajar rodeada de pessoas diversas, ouvindo as conversas das senhoras africanas. Esse contacto foi algo que me enriqueceu profundamente”, partilhou a autarca.

A iniciativa, promovida pelo Município através do Centro Local de Apoio à Integração de Imigrantes (CLAIM), decorreu no dia 21 de março, no Posto de Turismo das Caldas da Rainha, assinalando o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial.

Numa conversa informal, a iniciativa permitiu aos convidados refletir e debater os diferentes tipos de discriminação, tendo como foco principal a discriminação racial.

A moderadora, Thaissa Cavalcanti, da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), destacou a necessidade de ampliar a luta contra a discriminação para além da dimensão racial. Sublinhou que qualquer forma de discriminação tem como objetivo minimizar o outro e limitar o seu poder, algo inaceitável numa sociedade que deveria já ter ultrapassado estas barreiras.

Realçou ainda a importância dos Centros Locais de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM), que não servem apenas os imigrantes, mas qualquer cidadão que necessite de apoio. Destacou a relevância de levar este debate para fora dos grandes centros urbanos, reforçando a necessidade de uma reflexão local sobre os desafios da integração.

Por fim, sublinhou a evolução positiva de Portugal ao longo das últimas duas décadas, nomeadamente na inclusão de pessoas de diferentes origens em instituições públicas e no ensino.

O professor de História, Rui Correia, apresentou uma reflexão desafiante, levando os participantes a questionarem os seus pressupostos sobre o tema. O docente defendeu que, antes de condenarmos a discriminação de forma absoluta, é essencial compreender as suas razões históricas e os mecanismos que a sustentaram ao longo do tempo.

Na sua intervenção, Rui Correia começou por explorar a etimologia da palavra “discriminação”, sublinhando que a sua raiz remete para a ideia de “ver bem” ou “discernir”. No entanto, destacou a contradição inerente ao termo, dado que, na sua utilização contemporânea, sugere o oposto: a injustiça e a exclusão.

A partir desta reflexão, propôs um exercício crítico aos presentes: reconsiderar a discriminação não apenas como um fenómeno negativo, mas como uma realidade complexa que merece análise. “Se a discriminação persiste ao longo da história, então há razões potentes para a sua existência, razões essas que não podemos ignorar sem compreendê-las”, afirmou.

O professor fez referência ao seu livro “Salazar em New Bedford”, trazendo o exemplo dos emigrantes portugueses nos Estados Unidos nos anos 30. Muitos destes, segundo Rui Correia, alteravam os seus nomes para se integrarem melhor, trocando Miguel Valente por Mike Strong. Para Rui Correia, esta realidade demonstra que a discriminação nem sempre é imposta de fora, mas pode ser “interiorizada e perpetuada pelos próprios discriminados”.

No final, o professor apelou a uma reflexão profunda e fundamentada sobre o tema, exortando os presentes a afastarem-se de discursos simplistas. “A história é um grande exercício de humildade. Se queremos combater a discriminação, temos de compreendê-la em toda a sua complexidade. E para isso, é essencial estudarmos, questionarmos e escutarmos o outro, mesmo quando nos é desconfortável”.

Nilzete Pacheco, da Associação Lusofonia Cultura e Cidadania, sublinhou a importância do movimento associativo no processo de integração das comunidades, que faz “aquilo que o Estado não faz”. Destacou que nenhuma associação trabalha isoladamente e que a cooperação com entidades como autarquias, juntas de freguesia e institutos públicos é essencial para alcançar um impacto real.

A associação, localizada num bairro social, apoia tanto imigrantes como cidadãos nacionais, independentemente da origem, etnia ou cor da pele. No terreno, lida diariamente com desafios que muitas vezes não são visíveis para os serviços públicos, tentando minimizar os impactos da discriminação, que pode assumir várias formas – desde o sotaque até à cor da pele.

Nilzete Pacheco partilhou ainda uma reflexão sobre a perceção da diferença, recordando um episódio simbólico em que uma criança, ao ser questionada pelo pai se tinha colegas negros na escola, respondeu simplesmente: “Tenho colegas”.

A intervenção de Joana de Deus, da Associação Renovar a Mouraria, foca-se no trabalho da associação no coração de Lisboa, numa área marcada pela diversidade cultural, com 52 nacionalidades presentes. A associação trabalha principalmente com a comunidade migrante, mas não exclusivamente, e tem um forte enfoque na educação, com uma rede de parcerias entre escolas, agrupamentos e a comunidade local.

A instituição desenvolve projetos que promovem a interculturalidade e realiza intervenções diretas com crianças e famílias migrantes, especialmente em salas de aula.

No final, houve um momento de diálogo com a plateia, onde foram partilhados relatos e experiências pessoais sobre discriminação. A tertúlia destacou a importância de reconhecer e enfrentar as discriminações enraizadas na sociedade, promovendo o diálogo e a reflexão como ferramentas essenciais para a mudança.

 

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